quinta-feira, 21 de junho de 2018

Mirela.

"De onde vieste, sereia?
O olhar é teu traidor
A maré indomável permeia
Tão fiel refletor"

Mirela...
Imperatriz dos mirares
Teu semblante, uma tela
Praias, rochas e mares

Mirela...
Tímida apontou
Leal sentinela
Guarda o mar que a criou

Sardas dispersas no rosto redondo
O negro das mechas é um cobertor
Remete às ondas e uma estrela se pondo
Sob tua vigília de paciência e amor

Ah, os raios de azul!
Medusa que congela
O tempo não tem sul
Se te namoro, ó Mirela

Mirela que me persegue
Amiga do sono de noites e tardes
Imagino toda uma vida entregue
Aos teus olhos discretos e alardes

"A sinfonia que vem do azul mais escuro
É o afago que move tu'alma sem morada
Sinto na pele murmúrios do futuro
A brisa de uma nova chegada"


Samuel Garcia
Piratini, 20/06/2018

domingo, 13 de maio de 2018

Flávia.

"Época de votos sagrados
Aceitei meu papel sem imaginar
Que certos fios dourados
Minha infância iam rondar"

Havia um perfume a pairar
Sobre o cabelo molhado
Delícia de prazer em mirar
Um belo rostinho fechado

Certo dia, teu sorriso me quis
No ritmo de um "pega-pega"
Senti o que não se diz
Nem mesmo se nega
(Embora se tente...)

Ah, Flávia... Toda de branco
Do fundo do quarto me sorriu
A pequena noiva era um encanto
E meu disfarce com o chão colidiu

De mãos dadas
Beijaste a minha, logo surpreendeu
Foste princesa em um conto de fadas
E teu príncipe era eu

Quando não mais te encontrei
Foi duro ocultar o abalo
Sem opção, repassei
O beijo e o seu estalo

Pensei: "Adeus..."
Pouco sabendo de chance e dimensão...

Ali atrás, eu te via
Tratei o acaso como a um tesouro
Cinco vezes se repetia
Tua cabeleira de ouro

Acalentaste mais e mais a ousadia
Beijos viajaram sorrateiros até mim
Selada com eles uma agonia
Por falhar em te retribuir assim

Distantes de minha fuga nefasta
Fomos omissos na morte da solidão
Livres do bom senso que arrasta
As infinidades da imaginação

Ah, Flávia... Eu muito quis
Expor as marcas que em mim desenhaste
Fosse com lápis, caneta ou giz
Tornava evidente o contraste

Pensei: "Por que será...?"
Erguem-se reinos, nascem realezas...

Em teus olhos, esvaeceu a emoção
Beijos não viram a cor da partida
Soltaste, enfim, minha mão
Ao tempo em que fingi ignorar a ferida

A natureza o que não concede, priva
Sem querer, convidei o extermínio
Mas subestimei a alternativa
Suportar a falta de teu fascínio

O principado, outrora soberano, decaiu
Dos entulhos, reviveram teus velhos truques
Aperfeiçoados como antes não se viu
Para cortejar marqueses e duques

Ah, Flávia... Espantada ficaria
Com o que consistia meu coração
Mobiliado com teimosia
Coberto por contradição

Declarei um ou outro sortudo
E eu, mero desolado
Graças ao insistente escudo
Que proibia teu capricho enamorado

Pensei: "Algo deve ser feito..."
Limites não são de aço...

Engolido pelo ciúme
Abocanhado pela saudade
Intolerante, cheguei ao cume
Rompi com minha capacidade

Contei em partes o meu agrado
Porque me castigava o impiedoso presente
Segui os passos do passado
Para ser o teu príncipe novamente

Ah, Flávia... Celebrei o teu retorno
Cinzas ferveram mesmo moribundas
Não está frio o que está morno
Surgem botões nas flores fecundas

Provocante! Quase surreal 
Despejo de palavras cruas e pesadas
Mas eu quis e era o garoto ideal
Teu parceiro de viagens alucinadas

"Eis que chega o cansaço antes inexistente..."

Flávia sussurrava sem avisar
Seus absurdos vorazes
Esteve a me despir e idolatrar
Em seus delírios mais mordazes

Flávia atestava sem refletir
Tantas promessas sacanas
A malícia a atiçava em perseguir
A selvagem paixão e suas gincanas

Flávia perdeu-se em cenários
Esbanjados de luxo, soberba e ilusão
Apenas fins involuntários
Para nossa desgastada relação

Flávia, uma garota como tantas
Com sua distorcida noção de valores
Amargo fel que desorienta e desencanta
Juras de pequenos eternos amores

"Loiro o que era dourado
Crianças e seus crimes
Devidamente coroados
Com as perfeições mais sublimes"


Samuel Garcia
Piratini, 13/05/2018

quinta-feira, 1 de março de 2018

Aquele por Quem se tem Amor.

"5 voltas no calendário
A casa jaz organizada
A campainha anuncia o calvário
Fere toda infância imaculada"

Cacos de tua impaciência
Recolhi em uma tarde na varanda
Aqui, valeu minha prudência
O destino não sugere, ele demanda

Pedaços de teu querer bem
Coletei na mesa de jantar
Tradição sagrada que vem
Na forma de um filho pra visitar

Porções de tua nem tão cansada imagem
Juntei no berço da consciência
Ignorante da nunca ausente contagem
Que espreita e alcança nossa existência

Na camisa de leve marrom
Cada listra é um paralelo
Acompanha o decidido som
Do juiz e seu martelo

Percorri metros com determinação
Pois incumbiste a mim teu recado
O gracioso futebol na televisão
Requeria um amigo ao lado

Beirando a inexpressão
Desapareceu aquela imponência
A estranheza veio sem precaução
Apesar da escassa convivência

Fecharam-se teus olhos pr'esse mundo
A reflexão reinou sufocante
A perda é vítima do mesmo segundo
Que busca o choro transbordante

A lágrima era uma conhecida
Mas trouxe algo a mais consigo
Uma angústia jamais sentida
Que anula qualquer birra e castigo

Então as nuvens traem o sol
Então os espinhos povoam a roseira
Queria a isca sem anzol
E um poema na cabeceira

"Ó, aquele por quem se tem amor
Dedilha tua mais bela canção
Encilha teu dia mais sonhador
Que aí o impossível é uma fração"


Dedicada ao avô, Amado e a todos que vieram antes
Samuel Garcia
Piratini, 01/03/2018

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Revirando a Casa.

"O ano era 1996
Março, dia 24
Missão que se refez
Ciente rosto novato"

Eu poderia apertar tuas bochechas
Eu poderia te acomodar em meus braços
Eu poderia devolver tuas deixas
Eu poderia escolher meu favorito dentre teus traços...

... mas a fotografia é infalível
Quase 22 anos separam nós dois
Revirar a casa não é tão impossível
Quanto o antes encontrando o depois

Garotinho que me vê através dos anos
Suponho que não ouça, tampouco me entenda
A união mais perfeita e isenta de enganos
É a que enxerga ainda melhor com vendas

Ene atos puníveis e inconsequentes
Se os tivemos, logo escaparam
Mas não dos cadeados e correntes
Daqueles que nos criaram

Fitas cassetes empilhadas
Em um canto da cozinha
Cuidadosamente analisadas
Cada capa, título e linha

Cinco letras, cinco momentos
Em um simples saco de farinha
Mais além que um instrumento
Paixão que não era minha 

Álbuns de diversos tamanhos na cama
Folheados sempre por completo
A saudação de uma e outra trama
Cartões postais recheados de afeto

A mala é a alegria que se pode tocar
Simboliza liberdade e fantasia 
A pureza é o mais belo enfeite a decorar
Constante disposição e energia

O majestoso céu de todas as manhãs
Lá do alto, resplendor vai lecionar
Consumindo cada sinal de tédio e afã
Na paz dessa ilha sem mar

Em rodas se transformam minhas pernas
A tampa da panela é meu volante
O carro ao lado buzina risadas eternas
Enriquecendo nosso espírito viajante

Garotinho que mora aqui através dos anos
Comandante do meu saudosismo
Luxuosos se tornam teus humildes planos
Nivelo arranha-céus e abismos

"26 anos tinha ela
Nova pulsação pra nutrir
Mais um filho que sela
Os mais sinceros motivos pra sorrir"


Dedicada à mãe, Clarice
Samuel Garcia
Piratini, 01/02/2018

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Espaço sem Egoísmo.

"Gosto de espaço
Mas não quando sufoca
A volta do ponteiro traz um cansaço
E confusão é o que provoca"

Aqui na trilha de minhas metas
Um modelo promete felicidade
Diz traduzir curvas em retas
Com o dicionário da impulsividade

Afirma que é muita caretice
Se alguém atreve a contestar
E revela a maior de todas as tolices
A dispensa de um modelo pra copiar espelhar

Geral, dito padrão
Conduta quase automática
Seu trunfo é a aceitação
Em uma sociedade sistemática

Modelo de preferências e atitudes
Carimba como um produto a vender
O tanto de folia e inquietude
Que basta para o juízo perder

Toda aflição é mito
Promessa ousada e excitante
O mais íntimo conflito
Afogado em um acordo insinuante
(Até voltar à superfície...)

Pode até ser o correto
Mas em nada me cativa
Porque do que é concreto
Nada nos esquiva

"Gostaria de alguns vizinhos
Eu jamais fui egoísta
Só encontro nesses domínios
Aventureiros e turistas"


Samuel Garcia
Barrocão, 3º Distrito de Piratini, 31/12/2017

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Estranho Querer.

Escrito em suas regras e combinados
Ou no rodapé de um livro qualquer
“Quando perfurarem agulhas e machados
O sangue se refugiará como puder”

Intensidade é outra melodia
A carne, além de irracional, é sensível
Entrega seus contos de soberania
Mas um farelo de inocência é inadmissível

A enésima fantasia nasce da ausência de pudor
A nudez é a linguagem do desejo
Há um forte vínculo protetor
Além de paisagens e beijos

Aos quatro cantos, venerações
Livres de falsas verdades
Por toques, apertos e puxões
Os carrascos da castidade

Chega a ilusão mais real e dolorida
Querer ser o bastante na terra dos insuficientes
Provar que com o que se quer pra toda vida
Triunfamos sobre fenômenos em torrentes

Não é a diversão e os seus meios
Tampouco o impulso vencido
O controle dos anseios
Diante de um prato servido
(Instinto natural, desafiador e primitivo)

Poderoso, escondido e variável
O detalhe determinante da singularidade
Sabe-se que tem laços com o improvável
E vê com maus olhos a intencionalidade

A monotonia é perita em convencer
Expulsa devagar toda forma de esperança
Anuncia que a utopia prometida a florescer
Aguardará novo enredo e aliança

Juramentos de união pela eternidade
Comoventes se não fossem inválidos
Egos corados ultrapassam a realidade
Atravessam ficções e já estão pálidos

O agora é menos que o nada
Em um plano atemporal
Apenas o ar que vigia a madrugada
Destrói o que não tinha final

Temer pela própria capacidade
É a questão mais assombrosa
Todo ser tem uma vaidade
Em constante polvorosa

Estranho querer
Ter um mundo pra arriscar
Inútil é saber ler
Mas não interpretar


Samuel Garcia
Piratini, 14/12/2017

sábado, 21 de outubro de 2017

Joia da Noite.

“Esmeralda, safira ou rubi
Brincos, colares e pulseiras
Veste o que o ego exigir 
Enquanto a noite a veste por inteira”

Seu vício não cala
Suave é sua fala
É discreta, mas cobiça
Sua tensão é sua justiça

Disparam as armas de mulher
Em um coração juvenil
Refém de um bem me quer
Do seu mais novo desafio

Esse prazeroso brinquedo
Tão ao acaso descoberto
Rivaliza paixão e medo
E o seu corpo é um céu semiaberto

Seu caminhar, banhado em elegância
Os quadris equilibram instinto e prudência
Leves doses de arrogância
Adoçam os portais para sua essência

Entre os dedos, uma fuga
O embaço esclarece sua mente
Idolatra, detesta e julga
Sua vaidade persistente

Escorrem pelo rosto, na pele macia
Gotas escuras estranhas
Oriundas de uma companhia
Testemunha de suas façanhas

Em negros tecidos, sua melhor versão
A seda desliza na pele envolvente
Irrompem conflitos brutais com a tentação
Onde nenhuma vitória é iminente

Seus cabelos esvoaçam com o sopro da excitação
Convidam lábios a desbravar
Clareiras de agonia e satisfação
Além das ondas que refletem o luar

A noite egoísta a leva consigo
Abranda um poder impreciso
O sol da manhã é um castigo
E o entardecer lhe traz um sorriso

“Talento e feminilidade 
Jamais foram tão iguais...”


Samuel Garcia
Piratini, 21/10/2017