quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Revirando a Casa.

"O ano era 1996
Março, dia 24
Missão que se refez
Ciente rosto novato"

Eu poderia apertar tuas bochechas
Eu poderia te acomodar em meus braços
Eu poderia devolver tuas deixas
Eu poderia escolher meu favorito dentre teus traços...

... mas a fotografia é infalível
Quase 22 anos separam nós dois
Revirar a casa não é tão impossível
Quanto o antes encontrando o depois

Garotinho que me vê através dos anos
Suponho que não ouça, tampouco me entenda
A união mais perfeita e isenta de enganos
É a que enxerga ainda melhor com vendas

Ene atos puníveis e inconsequentes
Se os tivemos, logo escaparam
Mas não dos cadeados e correntes
Daqueles que nos criaram

Fitas cassetes empilhadas
Em um canto da cozinha
Cuidadosamente analisadas
Cada capa, título e linha

Cinco letras, cinco momentos
Em um simples saco de farinha
Mais além que um instrumento
Paixão que não era minha 

Álbuns de diversos tamanhos na cama
Folheados sempre por completo
A saudação de uma e outra trama
Cartões postais recheados de afeto

A mala é a alegria que se pode tocar
Simboliza liberdade e fantasia 
A pureza é o mais belo enfeite a decorar
Constante disposição e energia

O majestoso céu de todas as manhãs
Lá do alto, resplendor vai lecionar
Consumindo cada sinal de tédio e afã
Na paz dessa ilha sem mar

Em rodas se transformam minhas pernas
A tampa da panela é meu volante
O carro ao lado buzina risadas eternas
Enriquecendo nosso espírito viajante

Garotinho que mora aqui através dos anos
Comandante do meu saudosismo
Luxuosos se tornam teus humildes planos
Nivelo arranha-céus e abismos

"26 anos tinha ela
Nova pulsação pra nutrir
Mais um filho que sela
Os mais sinceros motivos pra sorrir"


Dedicada à mãe, Clarice
Samuel Garcia
Piratini, 01/02/2018

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Espaço sem Egoísmo.

"Gosto de espaço
Mas não quando sufoca
A volta do ponteiro traz um cansaço
E confusão é o que provoca"

Aqui na trilha de minhas metas
Um modelo promete felicidade
Diz traduzir curvas em retas
Com o dicionário da impulsividade

Afirma que é muita caretice
Se alguém atreve a contestar
E revela a maior de todas as tolices
A dispensa de um modelo pra copiar espelhar

Geral, dito padrão
Conduta quase automática
Seu trunfo é a aceitação
Em uma sociedade sistemática

Modelo de preferências e atitudes
Carimba como um produto a vender
O tanto de folia e inquietude
Que basta para o juízo perder

Toda aflição é mito
Promessa ousada e excitante
O mais íntimo conflito
Afogado em um acordo insinuante
(Até voltar à superfície...)

Pode até ser o correto
Mas em nada me cativa
Porque do que é concreto
Nada nos esquiva

"Gostaria de alguns vizinhos
Eu jamais fui egoísta
Só encontro nesses domínios
Aventureiros e turistas"


Samuel Garcia
Barrocão, 3º Distrito de Piratini, 31/12/2017

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Estranho Querer.

Escrito em suas regras e combinados
Ou no rodapé de um livro qualquer
“Quando perfurarem agulhas e machados
O sangue se refugiará como puder”

Intensidade é outra melodia
A carne, além de irracional, é sensível
Entrega seus contos de soberania
Mas um farelo de inocência é inadmissível

A enésima fantasia nasce da ausência de pudor
A nudez é a linguagem do desejo
Há um forte vínculo protetor
Além de paisagens e beijos

Aos quatro cantos, venerações
Livres de falsas verdades
Por toques, apertos e puxões
Os carrascos da castidade

Chega a ilusão mais real e dolorida
Querer ser o bastante na terra dos insuficientes
Provar que com o que se quer pra toda vida
Triunfamos sobre fenômenos em torrentes

Não é a diversão e os seus meios
Tampouco o impulso vencido
O controle dos anseios
Diante de um prato servido
(Instinto natural, desafiador e primitivo)

Poderoso, escondido e variável
O detalhe determinante da singularidade
Sabe-se que tem laços com o improvável
E vê com maus olhos a intencionalidade

A monotonia é perita em convencer
Expulsa devagar toda forma de esperança
Anuncia que a utopia prometida a florescer
Aguardará novo enredo e aliança

Juramentos de união pela eternidade
Comoventes se não fossem inválidos
Egos corados ultrapassam a realidade
Atravessam ficções e já estão pálidos

O agora é menos que o nada
Em um plano atemporal
Apenas o ar que vigia a madrugada
Destrói o que não tinha final

Temer pela própria capacidade
É a questão mais assombrosa
Todo ser tem uma vaidade
Em constante polvorosa

Estranho querer
Ter um mundo pra arriscar
Inútil é saber ler
Mas não interpretar


Samuel Garcia
Piratini, 14/12/2017

sábado, 21 de outubro de 2017

Joia da Noite.

“Esmeralda, safira ou rubi
Brincos, colares e pulseiras
Veste o que o ego exigir 
Enquanto a noite a veste por inteira”

Seu vício não cala
Suave é sua fala
É discreta, mas cobiça
Sua tensão é sua justiça

Disparam as armas de mulher
Em um coração juvenil
Refém de um bem me quer
Do seu mais novo desafio

Esse prazeroso brinquedo
Tão ao acaso descoberto
Rivaliza paixão e medo
E o seu corpo é um céu semiaberto

Seu caminhar, banhado em elegância
Os quadris equilibram instinto e prudência
Leves doses de arrogância
Adoçam os portais para sua essência

Entre os dedos, uma fuga
O embaço esclarece sua mente
Idolatra, detesta e julga
Sua vaidade persistente

Escorrem pelo rosto, na pele macia
Gotas escuras estranhas
Oriundas de uma companhia
Testemunha de suas façanhas

Em negros tecidos, sua melhor versão
A seda desliza na pele envolvente
Irrompem conflitos brutais com a tentação
Onde nenhuma vitória é iminente

Seus cabelos esvoaçam com o sopro da excitação
Convidam lábios a desbravar
Clareiras de agonia e satisfação
Além das ondas que refletem o luar

A noite egoísta a leva consigo
Abranda um poder impreciso
O sol da manhã é um castigo
E o entardecer lhe traz um sorriso

“Talento e feminilidade 
Jamais foram tão iguais...”


Samuel Garcia
Piratini, 21/10/2017

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Nunca Tão Distante.

"A viagem mais desorientadora é aquela dentro de nós mesmos."

Quão distantes podem estar
Alegrias, tristezas e fúrias?
E em qual porção da consciência é possível escutar
Suspiros, verdades e injúrias?

Memória sorrateira
Do nada, me força a viajar
Finas camadas de poeira
Estão na distância a repousar

O tempo é curioso, pois cura, fere
E me afasta de mim
Mas também estranhamente sugere
Que não é bem assim

Levou partes do que eu era
Despertou tendências adormecidas
Processo este que quisera
Desde as primeiras lágrimas perdidas

Moldado, flexível
Sou como argila
Sofrendo toda metamorfose possível
Enquanto os anos fazem fila

Números que só vão
Léguas que só ficam
Fragmentos de recordação
Enraízam e solidificam

Das virtudes, a paciência
Sempre foi uma fiel amante
Não seria mera coincidência
Que nunca é tão distante?

Encontro atalhos e os atravesso
Em todo rio há uma ponte
Querendo ou não, eu impeço
Um deserto sem horizonte


Samuel Garcia
Piratini, 12/10/2017

domingo, 6 de agosto de 2017

Fenomenal.

Profano e sagrado em união
As chamas estalam em um carnaval
Na mescla de crenças, uma religião
Complexa, singela e fenomenal

Atração e repulsão em constante contato
Extraem do necessário, o essencial
Atentas ao instante exato
Para gerarem um prazer fenomenal

Amargo e insosso em paladares
Um céu ruivo fechado e uma fossa abissal
Quando as águas brincam com os ares
Provamos um gosto fenomenal

Permitido e proibido em cenários surreais
Dançam à espera da palavra final
Entre passos corretos e truques mentais
Jaz um sentimento fenomenal

Brilho e poeira em olhos cansados
Que enfrentaram lágrimas e cores irreais
São arco-íris em dias ensolarados
Os temperos para vidas fenomenais

O gesto de ternura em meio à violência
O sopro de ar quente que acerta o varal
O pleno apego à sobrevivência
A canção do passarinho que invade o quintal

O beijo com gosto de querer bem
A água veloz que atravessa o canal
O segredo dirigido a ninguém
O amor nos olhos de um animal

O que se compreende e o que não
Nascem de um mesmo ventre
Todos fenômenos sem distinção
Filhos do hoje e do sempre


Samuel Garcia
Piratini, 06/08/2017

sábado, 22 de abril de 2017

Sobrevoando Madrugadas.

Sobrevoo madrugadas
Lado a lado com a aventura
Belisco mil jornadas
Como quem nada procura

Meu rumo é incerto
O vento, rotas pode traçar
As quais o coração esperto
É capaz de ignorar

Conduz-me então
Nada além de minha própria vontade
Trazendo a doce e bela sensação
Que é viver em liberdade

Se contemplo o céu escuro
A mãe da noite me sorri
É quando volto a ser puro
Tal como o dia em que nasci

As fases da lua são como meninas
Que me convencem a ganhar altitude
Sinto aflorar forças repentinas
E voo atrás do que comove e ilude

Até perceber que suas cores e contornos
São prometidos a divindades
E seus lindos e fascinantes entornos
Estão para outros graus de intimidade

Uma amostra do espaço
A via láctea dita o tom
Lembranças do fracasso
De quem clama por um som

Madrugadas, às vezes, raivosas
Castigam o chão com armas brutais
São maravilhas penosas
Suas tempestades e vendavais

Ao amanhecer, estou por terra
Mas os pés estranham e reagem
Impacientes, anunciam uma guerra
Pelo anoitecer e a próxima viagem

Como se a leveza refletisse
O eu físico e espiritual
E o solo em que me apoio sentisse
O peso da culpa e do mal

Ares de salvação e indiferença
Mas a maior certeza é a confusão
Meu corpo se comunica e pensa
Toma de mim o poder da decisão

Deseja madrugadas para desbravar
No céu de nuvens carregadas e enormes
O universo é todo um desconhecido a explorar
Para quem repousa, agradece e dorme


Samuel Garcia
Piratini, 22/04/2017