sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Nunca Tão Distante.

"A viagem mais desorientadora é aquela dentro de nós mesmos."

Quão distantes podem estar
Alegrias, tristezas e fúrias?
E em qual porção da consciência é possível escutar
Suspiros, verdades e injúrias?

Memória sorrateira
Do nada, me força a viajar
Finas camadas de poeira
Estão na distância a repousar

O tempo é curioso, pois cura, fere
E me afasta de mim
Mas também estranhamente sugere
Que não é bem assim

Levou partes do que eu era
Despertou tendências adormecidas
Processo este que quisera
Desde as primeiras lágrimas perdidas

Moldado, flexível
Sou como argila
Sofrendo toda metamorfose possível
Enquanto os anos fazem fila

Números que só vão
Léguas que só ficam
Fragmentos de recordação
Enraízam e solidificam

Das virtudes, a paciência
Sempre foi uma fiel amante
Não seria mera coincidência
Que nunca é tão distante?

Encontro atalhos e os atravesso
Em todo rio há uma ponte
Querendo ou não, eu impeço
Um deserto sem horizonte


Samuel Garcia
Piratini, 12/10/2017

domingo, 6 de agosto de 2017

Fenomenal.

Profano e sagrado em união
As chamas estalam em um carnaval
Na mescla de crenças, uma religião
Complexa, singela e fenomenal

Atração e repulsão em constante contato
Extraem do necessário, o essencial
Atentas ao instante exato
Para gerarem um prazer fenomenal

Amargo e insosso em paladares
Um céu ruivo fechado e uma fossa abissal
Quando as águas brincam com os ares
Provamos um gosto fenomenal

Permitido e proibido em cenários surreais
Dançam à espera da palavra final
Entre passos corretos e truques mentais
Jaz um sentimento fenomenal

Brilho e poeira em olhos cansados
Que enfrentaram lágrimas e cores irreais
São arco-íris em dias ensolarados
Os temperos para vidas fenomenais

O gesto de ternura em meio à violência
O sopro de ar quente que acerta o varal
O pleno apego à sobrevivência
A canção do passarinho que invade o quintal

O beijo com gosto de querer bem
A água veloz que atravessa o canal
O segredo dirigido a ninguém
O amor nos olhos de um animal

O que se compreende e o que não
Nascem de um mesmo ventre
Todos fenômenos sem distinção
Filhos do hoje e do sempre


Samuel Garcia
Piratini, 06/08/2017

sábado, 22 de abril de 2017

Sobrevoando Madrugadas.

Sobrevoo madrugadas
Lado a lado com a aventura
Belisco mil jornadas
Como quem nada procura

Meu rumo é incerto
O vento, rotas pode traçar
As quais o coração esperto
É capaz de ignorar

Conduz-me então
Nada além de minha própria vontade
Trazendo a doce e bela sensação
Que é viver em liberdade

Se contemplo o céu escuro
A mãe da noite me sorri
É quando volto a ser puro
Tal como o dia em que nasci

As fases da lua são como meninas
Que me convencem a ganhar altitude
Sinto aflorar forças repentinas
E voo atrás do que comove e ilude

Até perceber que suas cores e contornos
São prometidos a divindades
E seus lindos e fascinantes entornos
Estão para outros graus de intimidade

Uma amostra do espaço
A via láctea dita o tom
Lembranças do fracasso
De quem clama por um som

Madrugadas, às vezes, raivosas
Castigam o chão com armas brutais
São maravilhas penosas
Suas tempestades e vendavais

Ao amanhecer, estou por terra
Mas os pés estranham e reagem
Impacientes, anunciam uma guerra
Pelo anoitecer e a próxima viagem

Como se a leveza refletisse
O eu físico e espiritual
E o solo em que me apoio sentisse
O peso da culpa e do mal

Ares de salvação e indiferença
Mas a maior certeza é a confusão
Meu corpo se comunica e pensa
Toma de mim o poder da decisão

Deseja madrugadas para desbravar
No céu de nuvens carregadas e enormes
O universo é todo um desconhecido a explorar
Para quem repousa, agradece e dorme


Samuel Garcia
Piratini, 22/04/2017

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Introspectivo.

Disfarce essa apreensão
E não restrinja seus limites
Queira e exija distinção
Entre o real e o que não existe

Vozes e passos no deserto
Na cidade, silêncio e solidão
"É um sonho, logo desperto"
Também conheço essa confusão

Entenda se de repente
Nada retornar ao que era
Por vezes o que se sente
É bem menos do que se espera

Domine essa naturalidade
E derrame o último segredo
A mentira esbanja sinceridade
Hoje e sempre será cedo

Resta nada a justificar
Se as regras são ásperas
A pulsação prestes a acelerar
Condena os rostos e as máscaras

Discretos pingos de gratidão
Brotarão de suas entranhas
Mas ao pousar, secarão
Como euforias momentâneas

Aprecie esse desfecho
E extravase velhas ânsias
Presas, seriam um desleixo?
Ou apenas irrelevâncias?

O fim, que é passageiro
Desprezará o seu abrigo
Enquanto fantasmas sorrateiros
Trarão com eles, seu castigo

Marcas da vida mórbida
Falam de um outro "eu"
Uma natureza sórdida
Que Deus não me concedeu


Samuel Garcia
Piratini, 19/01/2017

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Choque de Distâncias.

Era tão simples e natural
Soluço ao lembrar do tempo
Em que não sentia esse calor infernal
Com teu menor movimento

Teus motivos são desconhecidos
Mas tento sempre uma explicação
A vida tem sabor de amor proibido
E os sonhos, aroma de prazer e emoção

Teu rosto é um mero artifício
Quando penso na espessura de tua pele
Uma história sem início
Que a loucura, desesperada, impele

Teu nome é um mantra
Quase como uma oração
Em teu ser, minh'alma encontra
A pureza da admiração

Tua imagem me atordoa
Agride tão feroz o meu peito
Que por todo o corpo ressoa
Sem permissão nem respeito

Sim, eu te culpo
Por essa tortura sofrível
Teu pecado, teu insulto
Provocar o impossível

Não sabes o que passo
Quando estás junto a mim
Temo que em algum abraço
Meu sufoco não tenha fim

Não sabes o que sinto
Quando miro teus olhos vidrados
Desvio e sou quase extinto
Morto até ser despertado

Não sabes o que penso
Em meio à rotinas incessantes
Noutro plano quente e denso
Torno tuas noites mais picantes

Lamento muito não te ver
Mesmo sabendo que assim é melhor
Essa insana paixão tem muito poder
Mas a razão é ainda maior

As circunstâncias são claras e irredutíveis
Mas onde sou rei, prova de minhas carícias
Contando minutos impassíveis
Pra beber desejo, amor e outras delícias


Samuel Garcia
Piratini, 22/11/2016

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Vida Carnal.

Confesso que sou feliz
Talvez como nunca fui
Longe da dor, o destino me quis
Mas essa distância só diminui

Bem que eu poderia ser incapaz
De discernir o que é do futuro
E viver sem esse medo fugaz
De topar com algum mal obscuro

Consequências irreparáveis
Gravidades devastadoras
Memórias e cicatrizes inapagáveis
Desgraças, aqui, moradoras

Tudo isso procuro evitar
No gozo desse presente triunfante
Eu sei que é inútil premeditar
Aquilo que muda a cada instante

Digo que sou agraciado
Todo meu sofrimento me fortaleceu
E serei plenamente agradecido
Se comprovar que, assim, permaneceu

Tento muito compreender
A seriedade de uma surpresa
É como a estratégia de um poder
Que visa atacar sua fraqueza

Pessimismo e precaução
São tão iguais quanto diferentes
Inexiste doutrina sem reflexão
E sigo entre passos confusos e impacientes

É provável que eu seja desesperançoso
E tenha em mim, uma mágoa contida
Que vê a falha no mais certo duvidoso
E desdenha da mais nobre jura prometida

Ou quem sabe, tenho muita cautela
Uma sempre constante anestesia
Que ameniza a dor, previne a sequela
E me dá a esperança de um novo dia

Eu muito queria uma certeza
Que permitisse sorrir sem hesitar
Trilhar por um chão livre de impurezas
Sem cair nem mesmo tropeçar

Glórias, vidas e segredos
Erradicam o cuidado e a negação
Nas linhas de incontáveis enredos
Onde o fim não é uma conclusão

Quero distância do que fere e é fatal
Tentarei correr até não mais aguentar
Sabendo que além da vida carnal
Meus dilemas não irão me afetar


Samuel Garcia
Piratini, 01/09/2016

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Amor Próprio.

Por longos anos, ele foi indiferente
Inflexível, com leves sinais de amargura
Para si mesmo, era um simples vivente
Cobiçando o que seria sua cura

O espelho nada refletia
Fosse costume ou desgosto
Sua mente não absorvia
As mudanças em seu rosto

Porém, haviam algumas mudanças
As quais, sem titubear, entendia
O coração batendo violento
Alertava que algo, o peito, invadia

Seu corpo era uma caixa
Dentro, lindas histórias de amor
Das fantasias mais sinceras
Consistia seu interior

Mas permanecia fechada
Jamais ousou, ela, abrir
Temia que a perfeição almejada
Pudesse não vir a existir

Eram cenários magistrais
Que extraíam todo afeto possível
Do atrevimento e da vergonha
Nasceria um amor invencível

Seu temor foi confirmado
Como alcançar sem estender a mão?
A dor veio pois estava despreparado
Para enfrentar as incertezas da paixão

Depois, foi assolado pela decepção
Dirigida a uma pessoa inocente
A imaturidade é a imposição
Sobre o raciocínio, que é ausente

A chama da mágoa se extinguiu
Suas cinzas, o vento esvoaçou
O espelho então refletiu
A face que nunca o abandonou

Percebeu que o corte machuca
Que o sangue é vermelho vivo
Ele foi totalmente esquecido
Durante seu sonho obsessivo

E aos poucos, sem querer
Criou laços consigo
Alimentou o desejo de cuidar e proteger
Do seu corpo, seu amigo

Certa aurora, percebeu
Que de amor, estava repleto
Olhando aos céus, agradeceu
Por ser um homem completo

Sorriu à imprevisão da existência
A cura que jamais encontrou em alguém
Estava presa na imprudência
Em acreditar que era um ninguém

Viu brotar uma fé inabalável
Os dedos obedeceram ao comando
Portando uma segurança admirável
Foi atrás do amor que estava chamando

Ele se deparou com mais desilusões
Mas não o derrubavam como antes
Para resistir às suas frustrações
O amor próprio era mais do que bastante

Incerto é até quando esperar
Por outra mão que pegue na dele
E sua história, assim que o momento chegar
Não pertencerá somente a ele

Veja bem quão importante é amar
A si próprio, logo, é obrigação
Custe o tempo que custar
O corpo e a alma estarão de prontidão


Samuel Garcia
Piratini, 22/08/2016