sexta-feira, 17 de abril de 2015

Ecos.

Um velho remorso que vive inquietante
Que nasceu do lamento de ser incapaz
Sombra do que por vezes foi provocante
Hoje é um fardo de tempos atrás

Um sonho, a ânsia de satisfazer
O gozo de ser uma frágil relíquia
Lábios que podem desfazer
A existência das ilusões resquícias

Sol oculto, memória da escuridão
A banalidade de mais um dia comum
Meiguice e frieza reinam a ocasião
Como velhas amigas de lugar algum

O impulso então se calou
A mão cedeu à outra a proteger
E uma gota de importância secou
Contemplando o erro que estava a cometer

Uma peça para tudo isso se encaixar
Era somente o que pedia
Porém, aceitou sem se queixar
E o coração já se escondia

Em seu rosto visível repulsa
Por pensar que poderia querer bem
O corpo fechado, uma aura que expulsa
Os devaneios de quem ali a tem

Seu corpo não clamava por aquele calor
Um sentimento abortado assim sem razão
Tamanho desespero, intenso pavor
Ao se unir a seus lábios não houve emoção

Um conflito interior
Causou a perda da única chance
De explicar que o amor
Estava fora do seu alcance

Mas ela soube das feridas
Que não desejava ter causado
Pois viu ali refletidas
As marcas do seu passado

No final, tudo é cicatriz
Ele é seu próprio espelho
É o novo dia quem diz
O momento de erguer os joelhos

Ah! As palavras não ditas
O silêncio não é tão ruim
Respostas são breves e finitas
Mas a culpa desconhece o fim

O ódio nunca nele habitou
Seus olhos eram esquivos e frios
Aquela moça sempre o lembrou
De belos sonhos que se tornaram vazios


Samuel Garcia
Piratini, 17/04/2015

domingo, 15 de março de 2015

Seja Cedo, Seja Tarde...

Seja cedo, seja tarde
Enquanto for duradoura
A felicidade que tanto me arde
Ao nascer da aurora vindoura

Procuro sempre me orientar
Mas estou encurralado
Por raios incandescentes a cintilar
Colorindo o céu antes estrelado

O tempo se rende aos corações bons
Cujos feitos eternamente viverão
Prevalecem dentre os tons
De vida e morte em distinção

E no testemunho da bela natureza
Perpasso meu ser no teu rosto
Onde vibro com tamanha beleza
Desse sorriso meigo e disposto

Meu destino é em direção ao sol
E esse vento vai castigar teus cabelos
Perfumes impregnam teu negro lençol
Ah! Quem me dera algum dia tê-los...

A iluminada aurora chegou
Porém, agora quero pegar na tua mão
Vem comigo que ainda não acabou
Temos uma jornada por este chão

Nada vejo, minha visão se apagou
Não sinto teus dedos, ah! Não pode ser!
Emboscada que a vida preparou
Até por completo te esquecer

Passado e futuro
Inexistentes em mim
A brisa e o suor em meio ao escuro
É uma tempestade sem fim

Sou apenas um homem que ainda vive
Que desconhece se resiste ou já resistiu
Lembro vagamente que estive
Tentando encontrar alguém nesse vazio


Samuel Garcia
Piratini, 15/03/2015

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Ausentes.

Devaneios que beiravam o absurdo
Em breve se fizeram opinião
E já não ouvimos o baque surdo
Dos gritos oriundos da voz da razão

É quando nos deixamos consumir
Por instantes que mais parecem uma existência
Incontáveis anos que passam por vir
Declaram deles nossa própria ausência

E é tão difícil lidar com consequências
Que castigam mais além do corpo
Tornam-se frutos da nossa vivência
E marcam seus impactos em um todo

Uma incerteza que nos devora
Em milésimos tão despercebidos
E de repente vai-se embora
Deixando laços de afeto partidos

É o mal da impulsividade
Que arranca o tempo da reflexão
Encobre nossa bondade
Com sombras e pedidos de perdão


Samuel Garcia
Piratini, 23/02/2015

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Similar.

Longas esperas sob os adornos do espaço
O branco dos pontos virtudes ensinam
Como a leve brisa que vence o embaraço
De soprar tão fria na ausência do sol

O dedo que aponta a estrela
No céu da noite escura
É o fogo sereno da vela
Que alimenta o calor com brandura

Estando mais uma vez à luz do luar
Veio a mim o fato mais interessante
A união do que é similar
É capaz de tornar o tempo em instante

Feições e gestos
Posições e gostos
Acabam em afetos
Dos pés aos rostos

O que é igual transparece ser forte
E as semelhanças podem embriagar
Quando dois não esperam da sorte
O sentimento se manifestar

Conforto e relutância
Provoca aos semelhantes
Compreensão em abundância
Ou incertezas preocupantes

Corações que um ao outro conhecem
Peças do mosaico que encaixam
Mil sonhos já florescem
E nesse mútuo desejo os acham

Porém, tanta igualdade também pode afastar
Nem tudo são flores no jardim
Quando chega a hora de amar
Similar, diferente, não importa no fim


Samuel Garcia
Piratini, 28/01/2015

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Regressar.

A mão de um destino injusto
Vai depressa ou devagar
Não importa tempo e custo
Se tu não sabes regressar

E nas auroras sorridentes
Por entre as curvas das montanhas
A vitória dos prudentes
É sobre a pressa e suas artimanhas

Se à tua frente não há progresso
Tampouco a sonhada felicidade
É a hora do regresso
Reconstrói tua integridade

Os mesmos quilômetros percorridos
De nada serve uma absurda velocidade
O sol brilha no chão desconhecido
Pelo repúdio à trapaça e a vaidade

Primeiro lugar é tolice, ilusão
De que vale na frente disparar
Se tu caíres no poço da danação
Justamente por não saber regressar?

Precaução, palavra-chave
Sentidos atentos são essenciais
Ao mínimo sinal de indecisão apenas trave
E aprenda a progredir voltando atrás

Dúvidas podem e devem aflorar
A ambição consome quem a tudo deseja
Com egoísmo um passo a frente não é avançar
O futuro espera que isso, tu vejas


Samuel Garcia
Piratini, 31/12/2014

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Velho Violão Negro.

De madeira e aço
Tu és feito
Entoa o compasso
Que dança em nosso peito

Um acorde que hipnotiza
Pertencente a outra dimensão
O conjunto que realiza
Os pilares da canção

E tantos dedos já tocaram
E tantas escalas ressoaram
Carícias no teu braço
Sinfonias no meu ouvido

Gerações vieram com os anos
E ainda tens a mesma energia
A forte cor enfraquece
Mas não a bela melodia

E se outro vem em teu lugar
Não te sintas abandonado
És relíquia a preservar
Mereces todo cuidado

Então desfruta o descanso
Comporta a tua voz
Continue assim, mudo e manso
Alguém irá recorrer a vós

Te moldaste para mim
E agora sou mais um filho teu
Tua música não vai ter fim
Ela toca no coração meu


Samuel Garcia
Piratini, 24/12/2014

Cuida de Mim.

Enfrentando fantasmas da lamentação
Eu posso desmascarar as motivações secretas
Minha visão corre ao redor como a veloz correnteza
Na infeliz lágrima que no rosto se dissolve
Flutua no imaginário a razão que a envolve
Comendo os frutos da duvidosa paixão
Sou curado e vou partindo por esse chão
Juntarei diamantes que jazem presos na vontade
E seus brilhos hão de ofuscar o sol

Ouço sofrimentos vindos da impiedosa saudade
Farei soar todo meu amor no limbo fortificado
Retomo a procura por algo inalcançável
Corroi minha já cansada alma seus corações partidos
Guiarei até os mais puros sonhos uma lembrança
Lutem e conquistem a brava perseverança
Vedes que fui desprovido de escolhas
Os céus em meu ouvido sussurraram
Levado de toda a essência brotou então a dolorosa nostalgia
Jamais quero ser lembrado como aquele que vivia
Somente finalizei tudo que aí me cabia

Deveras era o momento decisivo
Infiltrar no infinito proibido
Evitar as tentações deste mundo
Reunir todos os fragmentos da verdade
Ignorar a utopia e crer que é possível a nossa felicidade
Estender a mão ao próximo
Saborear o doce gosto do amor
Acordar sorrindo por entre anjos da guarda
Correr com vontade por entre o verde gramado de Deus, sem parar...

É minha nova morada
Onde pássaros assobiam sigilosas canções
Sobre dores e amores de multidões
De outro plano que outrora eu vivi
Lá onde nunca deixei de sorrir
Uns dirão que fui corajoso
Outros, que fui inocente
Mas o que mais me atormentou
Foi ter que deixar a minha gente

Ouvi e ainda ouço suas orações
O coração bate ansioso
Um pedaço em cada um
Meu olhar atento zela por vocês
Minha luz ilumina seus espíritos
Saibam que estou bem
Por um fato simples e sincero
É o que pra sempre quero
O poder cuidar de alguém

Dedicada a Vagner Garcia
Samuel Garcia
Piratini, 24/12/2014