quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Passado e Distração.

Como descobrir o que me distrai?
Essa sensação de estar ficando pra trás
As casas e as paisagens envelhecem
E de mim se distanciam mais e mais

Talvez nos dias que não vêm na memória
Nas alegrias mais puras que já senti
Estão elas presas em outra existência
Que em uma fração eu esqueci?

As mudanças e o desejo de regressar
Tive preciosidades nas mãos
Mais valiosas que ouro e prata em abundância
E hoje, não tenho nem mesmo um grão

Quando algo é tirado outro é recebido
São outras palavras, outros pensamentos
Nos tornamos melhores quem sabe mais humanos
Diante desse mundo de audácias e lamentos

Os rostos e as amizades que encontro
Se ajudassem a mim a compreender a razão
Dessas nossas vidas corridas
Que parece não se cruzarem em vão

Comuns ou raras ocasiões
É inútil uma chance resgatar
Se é possível que um caminho esteja ali
Em alguém cuja tendência é ignorar

Por vezes somos tão perdidos
Na busca de sermos encontrados
Se não nos encontramos no presente
Então mergulhamos no passado

O que há muito está esquecido
Dificilmente fará alguma diferença
Olhar pra trás pode ser um pecado
Se houver aperto no peito, a saudade imensa

O necessário é nada mais que renovar
"Águas passadas não movem moinhos"
Já diziam aqueles que com vontade
Lutavam contra tudo sozinhos

O passado cerca e seduz
Com doces lembranças e aparente convicção
Mas se ao fim de tudo não houve um sorriso
Tudo se trata de uma injusta e equívoca ilusão

Já sei o que me distrai
Eu sou livre pra ser, viver e fazer
As casas e as paisagens se aproximam
Ora pois, voltei a envelhecer


Samuel Garcia
Piratini, 20/08/2014

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O Caminhar da Juventude.

Nossa juventude é o ouro
Que levaremos pro resto de nossas vidas
Marcas de nossa ousadia e coragem
De grandes chegadas e das sinuosas despedidas

Um estado de ser e estar, de amores brotarem
Dos sorrisos verdadeiros, dos amores mais sinceros
De tudo que é bom e memorável
De tudo que para sempre será o eterno

Mas nem tudo está certo
Ouço algo se partindo
Os maus caminhos do mundo aberto
Adentram sem serem bem-vindos

Juventude inocente e dominável
Se deixa levar pelos ventos da tentação
E o que é triste e inaceitável
É não saber interpretar a direção

Uma direção nunca bem clara
Rebuscada por uma mistura de instinto e saber
Que em muitos casos gera experiências amargas
Noutras tantas um exemplo de viver e crescer

A juventude de noites intermináveis e das bem vividas
Dos goles de pura coragem
Dos dissabores da imaturidade
Do sangue quente e pulsante
Que gera a energia que iremos levar pelo resto de nossa vida
Vívida e inquietante

E ouso dizer que quem o espírito jovem manter
Tristeza nenhuma
Há de ter

Ter ideais é uma marca da adolescência
Saber pensar infelizmente nem todos sabem
Desejos à flor da pele repletos de decência
São destinos em suas inúmeras viagens

Os tais portadores da liberdade
Ir e vir nas opiniões e preferências
Relíquias pertencentes a uma idade
Onde o foco são alegrias e experiências

É o saber ter, perder, esperar,
Sorrir, chorar, amar
E viver, sentir nesse eterno parêntese
(parêntese sumidouro como o mar)

E essa é a juventude
Muito mais que uma idade
É um estado de jovialidade
Que deve e pode
Ser levado para o resto da vida
Pra que a nossa essência nunca se escorra
Por entre as rugas da pele


Samuel Garcia / Erasmo Pinheiro
Piratini, 30/07/2014

sábado, 19 de julho de 2014

Uma Decisão.

Reflexões são reflexões em qualquer lugar
No instante em que morre o olhar
O redor não parece convencer
Que é inútil a realidade reverter

O pouco que resta tratado como nada
Escuridão interminável, escravo da madrugada
As paredes que o cercam são as celas da prisão
Forjadas para garantir sua única salvação

Testes e provas brutais mas necessários
Para juntar os cacos, levantar e seguir
As más previsões e o desespero são adversários
Que observam até onde ele pode resistir

E compreender é uma tarefa desafiadora
A partida da felicidade é avassaladora
Sem saber se ela vai voltar
Vem a angústia que não se pode reparar

Unhas e dedos destroçados
Por dentes ferozes e aterrorizados
Na loucura se rendem aos piores pesadelos
Arrancando roupas, pele e pelos

A pequena janela reforça a incerteza
Refém da solidão pelo resto dos dias
Desprezível dentre todo tipo de pobreza
É desistir de lutar contra prováveis agonias

Que podem nem se fazer
Mas o raciocínio é inconsciente
E o que se consegue ver
São as chamas de um fogo ardente 

Semanas e meses cruéis
O amanhã não existe e o hoje é passado
O tempo e a esperança são infiéis
Aos olhos do pobre vivente já conformado

O universo é só um estranho
Onde impera noite e chuva sem cessar
E ele é mais um no rebanho
Uma fé fadada a fracassar

Enxerga somente dentro de si
Amor, ódio e perdição
Nem imagina que logo ali
O sol desponta na forte cerração

O escuro se torna mais claro
E ele crê que é mais um delírio
Vai ignorando o que pode livrá-lo
Do longo e terrível martírio

Vão-se os minutos, vão-se as horas
E os olhos sempre fechados
A luz praticamente implora
Que contemple seus raios dourados

E dentro de sua conturbada mente
Se pergunta o que tem a perder
Pois nada importa dali pra frente
Se no final irá perecer

As pálpebras se abriram
O corpo ficou de pé
As portas e saídas então reluziram
A importância da fé

Nunca se dê por vencido
Em toda treva existe o clarão 
Preso em um desconhecido
Pra se fazer espera de ti uma decisão


Samuel Garcia
Piratini, 19/07/2014

sábado, 12 de julho de 2014


O que o vento traz... (Parte 8)

Amado Orlando,


        Perdão pela demora. Ando doente... Não te preocupes meu bem, hão de ser apenas prejuízos de espírito. Esclareço-te: minha visão desgasta-se a cada segundo, os ouvidos andam ruins; parece-me que bebi quarenta anos com água e açúcar. Sinto que meus escritos tornaram-se eternas quedas sobre penhascos, constantes suicídios bruscos. A dor só não me tomou a mente, pois ela mesma preencheu-se de mais fiel inveja.

       Por que a inspiração que pousa por sobre os ombros de vários, como mais delicada amiga, age com mesquinharia quando se trata de minha pessoa? Pois, como as estrofes que doam harmonia a tantos, a mim simplesmente ajuntam desassossego?

       Logo virá o futuro e tu estarás aqui?

       Separação é apenas uma palavra que se torna irrelevante se soubermos viver sua antônima. Não há distância que separe almas ligadas, mas será que essas são as nossas? Ainda há o que esperar de nós, Orlando?

       Estamos perdidos nesse oceano de questionamentos em que só fazemos nos afogar. E o senso comum nos diz que nos agarrarmos um no outro fará com que afundemos. Em algum momento teremos que desistir. Temos nadado tanto para chegar a lugar algum... Estou cansada demais e já não me importa se morrerei em alto-mar ou na praia. Diga-me: tu gostarias de viver afogado em si ou morrer transbordando em nós?


                     De quem vive a te esperar, Helena.

Maikele Farias,
Porto Alegre, 12/07/2014

sábado, 5 de julho de 2014

Política.

Nas ruas e ruelas
Nos centros e favelas
Ecoa a velha epifania
“Mato um leão por dia”

Esbanjados em preguiça
Gritam, lutam por justiça
Só que a maioria não sabe
O que é justiça de verdade

Hipocrisia grafada na testa
“Abaixo aos altos impostos!”
Fazem da manifestação uma festa
Lojas saqueadas, carros queimados

O espírito de protesto que faz a diferença
Existe mas são poucos que o tem
Como esperar que se vença
Alegando, exigindo e destruindo também?

Olhos abertos população
Saibam usufruir da democracia
Não lutem com armas e rebeldia
Mas sim com firmeza e convicção

Nada justifica a violência
Quem vence é a humildade e a decência
Paz e objetividade dão resultado
Somente assim se muda um Estado


Samuel Garcia
Piratini, 05/07/2014

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Pétalas de Sangue.

Flor, que eu bem te queria
Cante pra mim as canções
Que por vezes esquecia
Nas entranhas dos teus botões

Melodias tão penosas
Nos protegem sigilosas
No frio alvorecer
De quem não quer sofrer

Muito preciso delas
Então, rainha flor, cante
Trago fósforos e velas
Caso o escuro se implante

Mas não há nesta alameda
As cantigas que beijam o ar
Peço que por mim interceda
E cante-as para que possas me salvar

A insanidade e a melancolia vêm armadas
De risos e prantos eternos
Pelas vidas por mim arrancadas
Nas frias noites de inverno

Fui teu corpo e o teu ser
Enquanto tu engolias amargo desprezo
Agora não me faça perder
O orgulho que tanto prezo

Flor, sabes que eu bem te quis
Tu agora me deixas abandonado
Para sucumbir deste modo tão infeliz
Perdendo o que eu tinha de mais resguardado

Já prendo-me a orações, porém, é em vão
Como se as graças dos céus aceitassem me resgatar
Desses pecados isentos de redenção
Que cometi sem ao menos questionar

Amaldiçoadas sejam tuas pétalas de sangue
Ficarão marcadas nas promessas de retribuição
Dos olhos atentos que a tudo vêem
E das almas que na morte não encontram uma razão

Te escondes nesta flor
Demônio, tu jamais vencerás
Exclamo agora com fervor
Que contra Deus tu perderás

Pagarei pelo que fiz em teu nome
Mas pelo menos vou me sentir aliviado
Pois foi-me dito que haverá um fim à tua fome
Por sangue, morte e pecado


Samuel Garcia
Piratini, 20/06/2014